Quando a religião utilitarista supera os limites da responsabilidade social

Este texto que vos escrevo agora foi publicado no meu Medium (plataforma de publicação de conteúdo) no dia 26 de março de 2020. Praticamente um ano depois parece que ainda não aprendemos com a realidade dos fatos tristes que estamos vivendo.

A pandemia segue mais forte do que no ano passado, mesmo que os grupos
prioritários estejam sendo vacinados. Só no dia que escrevo este parágrafo, a COVID-19 matou 1.910 pessoas no Brasil; as UTIs de várias cidades brasileiras estão lotadas; na cidade em que resido, João Pessoa/PB, está havendo toque de recolher das 22h às 06h. É até possível que, no momento em que você estiver lendo este texto, o decreto já nem exista mais ou um novo decreto esteja em vigor. O fato é que, enquanto uns se cuidam e pedem a Deus livramento, outros vivem como se nada disso existisse.

E assim como ocorreu no ano passado, o decreto do governo do Estado, em que restringe certas atividades, dentre elas as religiosas, muita gente ainda está discutindo a abertura/fechamento dos templos durante atividades que aglomeram pessoas, a exemplo dos cultos e das missas.

Vamos relembrar o que aconteceu no ano passado!

O Ministério da Saúde orienta a não aglomeração de pessoas em locais públicos e privados, mesmo permitindo, desde o dia 13 de março de 2020, que os templos poderiam ficar abertos para quem quisesse praticar seu rito e ser orientado espiritualmente. Nisso, não vejo problema algum dos líderes religiosos exercerem o papel no cuidado das pessoas. A questão que gera o debate público é que, quando se decreta que as atividades religiosas são serviços essenciais mediante ao contexto que estamos vivendo, de fato, abre-se um pretexto para a realização de celebrações presencias. Qual a essencialidade em realizar um culto, ou uma missa, aglomerando pessoas e potencializando a transmissão viral em determinado ambiente? Até porque a maioria das igrejas das mais variadas religiões nunca deixou de realizar sua respectiva atividade, a diferença é que, neste momento, a presença física não é indicada. Um exemplo de que as igrejas não pararam suas atividades trata-se dos cultos e missas que estão sendo produzidos a partir das mídias sociais. Aliás, eu nunca vi tantos líderes religiosos fazerem tanta atividade religiosa quanto agora. Se seguirmos um perfil de um pastor, por exemplo, todos os dias esse mesmo pastor estará em nossa casa comunicando a fé. Decretar que a atividade religiosa é essencial no momento em que a própria atividade religiosa nunca foi estagnada é, de fato, atender aos interesses de um grupo, de uma tribo, de um segmento.

O texto não perdeu sua validade, concorda? Sabemos que o gene da igreja é a vivência em comunidade, mas quem disse que a comunidade é exclusiva a quatro paredes de um templo? “Disse-lhe a mulher: “Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar. Disse-lhes Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. […] Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem” (João 4. 20–23). Jesus fala de uma fé desterritorializada, não restrita a um grupo ou a um lugar.

A liberdade religiosa não é tolhida com um decreto, inclusive a atividade social pode ser realizada independentemente dos cultos. A visita ao gabinete pastoral também não é proibida em dias de decreto. É preciso que as instituições religiosas, antes de serem espaços eventuais de quantidade de pessoas, sejam comunidades que cuidam de pessoas. E, de fato, essas comunidades existem e estão espalhadas pelo Brasil. No entanto, no contexto religioso e político brasileiro existe os cuidadores e os utilitaristas.

Prefiro seguir a voz da Ciência (que também é a voz de Deus. E por que não seria?) do que seguir a voz de uma religião utilitarista e egoísta que faz muito barulho nas mídias sociais.

Por Ramon Nascimento (doutorando em Estudos da Mídia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e professor de Comunicação Social).

2 COMENTÁRIOS

  1. Suas palavras têm validade e força. É gritante o que acontece em cada “nova onda”, que se avoluma em mortes, cada vez mais próximas. A religião tem um papel fundamental não apenas na cura de dores, mas para nortear rumo à preservação da vida. Me acosto ao pensamento do Pastor Estevam Fernandes, da primeira Igreja Batista: “Nós somos a igreja”. É tempo de lutar pela vida e não brigar por decretos. Parabéns, doutor Ramon Nascimento, pela coragem e lucidez.

  2. “Independente de covid, se o ministério de uma igreja é comprometido por causa do fechamento de um prédio, algo foi perdido no entendimento do que que significa SER igreja.”

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